Entrevista com Carlos Pasquetti

31.jul.18

Antigo conhecido de Iberê Camargo, o artista plástico gaúcho Carlos Pasquetti teve a oportunidade de trabalhar, entre os dias 15 e 19 de setembro de 2013, no ateliê que pertenceu ao mestre do expressionismo no Brasil. Participante do programa Artista Convidado da Oficina de Gravura, promovido pela Fundação Iberê Camargo, ele produziu duas séries de trabalhos, que integram hoje o acervo da instituição. Em entrevista ao site da Fundação à época de sua residência, o artista falou sobre a convivência com Iberê, seu trabalho, o cenário artístico em Porto Alegre e muito mais. Confira.

O Iberê me influenciou em termos de atitude como artista. A influência não foi na linguagem, mas no modo de encarar o trabalho.

Como está sendo a experiência de trabalhar no ateliê de gravura da Fundação Iberê Camargo?
Trabalhar nesse ateliê de gravura é um privilégio e uma responsabilidade, especialmente para quem conheceu o Iberê. Você fica querendo desenvolver um trabalho legal, dentro do profissionalismo que ele sempre buscou, tanto nos materiais quanto nos questionamentos acerca da própria arte. Trabalhando aqui, o artista tem uma relação com a obra do grande pintor que foi Iberê. É muito legal.

Poderias falar um pouco sobre o trabalho desenvolvido aqui?
Como eu não tenho experiência com gravura, o processo foi um pouco trabalhoso. Mas eu fiz dois conjuntos. O primeiro utiliza fotografias e gravuras. É um jogo com a técnica da reprodução da fotografia e da gravura. E é um jogo formal também. A seqüência de fotos e gravuras cria um movimento, uma história que se relaciona com o espaço. É um jogo visual. A outra série que eu fiz é composta apenas por três gravuras. Na verdade, nem era para ser uma série. Eu fui experimentando, sem um planejamento, mas acabei criando uma história. O meu trabalho está sempre relacionado à criação de uma história, e faz um jogo com o espaço e com a memória.

Antes tu falaste que era um privilégio trabalhar no ateliê que pertenceu a Iberê Camargo, especialmente para quem o conheceu pessoalmente. Como foi a tua convivência com Iberê?
Foi uma convivência muito intensa, pois ele era uma pessoa muita intensa. Mesmo com mais idade, sempre teve um espírito jovem, dinâmico. Isso facilitou seu relacionamento com pessoas de outras gerações. E ele entendia perfeitamente o que a gente queria dizer. E gostava de falar sobre o desenho, sobre as linhas.

E como se deu esse contato entre vocês?
Eu costumava visitá-lo no ateliê, principalmente no da Lopo Gonçalves. Eu cheguei a vir aqui também, mas como ele já estava doente, não era com tanta freqüência. A nossa convivência foi muito legal. Ele era muito receptivo a tudo que é manifestação da pintura e do desenho. Sempre teve uma percepção muito aguçada. Mesmo que a pessoa fizesse um trabalho que não batesse com o dele, o Iberê sacava bem o que a pessoa queria falar.

Esse convívio com o Iberê teve alguma influência sobre o artista Carlos Pasquetti?
O Iberê me influenciou em termos de atitude como artista. A influência não foi na linguagem, mas no modo de encarar o trabalho. Ele tinha muito respeito pelo desenho, pela pintura. Para ele, o trabalho não poderia ser feito na correria. Tinha que ser um trabalho pensado, realizado com bons materiais… Essa seriedade com que ele sempre tratou a arte é que me influenciou.

No final deste ano, a Fundação irá lançar a quarta edição da Bolsa Iberê Camargo. O destino do artista vencedor será a escola do Art Institute of Chicago, onde tu estudaste na década de 80. Como foi a experiência lá?
Eu fui para os Estados Unidos com uma bolsa da Fullbright, e queria uma escola que fosse bastante liberal, sem um currículo acadêmico. E essas escolas americanas que pertencem a museus são extremamente dinâmicas. Elas são bastante práticas, com um enfoque forte na tecnologia. E a escola do Art Institute of Chicago era e seguramente se mantém como uma das melhores escolas do mundo. É umas das mais contemporâneas. Mas ela trabalha o contemporâneo sem se esquecer da tradição. Como ela pertence ao museu, o aluno tem a oportunidade de passar pela frente de toda a história da arte… Isso é muito bom. Eu acho que a Fundação Iberê Camargo faz muito bem em diversificar os destinos da bolsa. Acho que seria ruim trabalhar com um só lugar. Quanto mais se circula, mais informações se tem hoje em dia, especialmente num mundo que é multicultural e multifacetado como o nosso.

Tu tens um vínculo já bastante longo com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e, ao contrário de muitos artistas, permaneceste em Porto Alegre. Como avalias a cena artística na cidade?
O vínculo com a universidade me segurou aqui, mas também me possibilitou realizar uma série de viagens. E eu gosto muito de dar aulas. Principalmente de trabalhar com o aluno no ateliê. O que mais me fascina é ver o trabalho surgir, começar a se estruturar. Então eu acabei ficando em Porto Alegre, conciliando meu trabalho como artista com o trabalho de professor. Mas acho que vou encerrar um período da minha vida daqui a pouco. Estou com vontade de me dedicar só para o meu trabalho, até porque tem muita coisa que eu quero fazer. Mas eu acho que Porto Alegre, atualmente, é um lugar muito difícil. Já foi melhor, mas agora está difícil. A Fundação vai preencher uma lacuna importantíssima, construindo um museu altamente profissional e colocando Porto Alegre no seu devido lugar, no lugar de expoente em termos de espaço de amostragem. E tudo está sendo feito de forma estritamente profissional, como pensava o Iberê. A Fundação está inaugurando uma nova fase na história da arte em Porto Alegre. Embora já existam vários museus e até o Instituto de Artes da UFRGS, que é quase centenário, faltava ainda surgir algo como o Museu Iberê Camargo. Porque a Bienal do Mercosul, embora seja muito importante, só acontece a cada dois anos. A Fundação realiza um trabalho diário. Isso vai conquistando a confiança das pessoas. Certamente o museu vai ser a atração de Porto Alegre.

 

Imagem: Carlos Pasquetti trabalhando no antigo Ateliê de Gravura da Fundação Iberê Camargo. Foto © Acervo Documental da Fundação Iberê Camargo