Primeira exposição do Programa Escola da Fundação Iberê Camargo

Conhecer a obra de Iberê Camargo significa fazer um mergulho corajoso no desconhecido, significa trilhar por caminhos entreabertos, sentindo sempre o sabor de dúvida, uma vez que ele jamais nos oferece as respostas mas, sempre, o prazer da descoberta.

Nesta exposição, são apresentadas obras do acervo da Fundação Iberê Camargo. Para sua elaboração foram escolhidas aquelas que mostrassem um pouco de sua trajetória artística, identificadas através da leitura de seus escritos. Isso porque este artista foi, além de mestre da pintura e da gravura, um escritor inteligente e vivaz, capaz de dizer muito sobre seu trabalho plástico nas entrelinhas do seu discurso de vida. Frases do artista acompanham as obras expostas, propondo diálogos e indagações.

Em um primeiro núcleo, evidencia-se um conjunto de paisagens realizadas entre 1941 e 1947. Nelas estão presentes inúmeras marcas de seu futuro trajeto, como a gestualidade e a materialidade. A diminuta dimensão destes quadros não esconde sua grandiosidade. Vale a pena deixar-se levar pelo movimento de cada um deles, esquecendo o tema e descobrindo, ali, o grande artista abstrato que então se formava. Alguns estudos sobre arte falam das fortes ligações da abstração com a pintura paisagística. Aqui se pode observar um exemplo destas relações.

Iberê Camargo foi, também um grande pintor da figura humana, passando, em sua formação, por diferentes experiências, como por exemplo, o exercício do lirismo, no período em que foi aluno de Guignard, ou da geometria modernista, em estudos realizados sob a orientação do francês André Lhote. O artista foi descobrindo, de forma pessoal, os mistérios desse tema tão complexo e difícil de captar. Retratos permeiam sua obra com persistência, mostrando sua ligação afetiva com a grandiosidade e, principalmente, com as misérias do homem.

Foi, porém, através do estudo de objetos que ele chegou os carretéis, figura-signo que o conduziu à abstração. Com esta produção, que se iniciou nos anos 50, ele se consagrou como um dos maiores pintores nacionais. Dono de uma ousadia inigualável, buscou cada vez mais, através da experimentação permanente, fugir de certos estereótipos e abrir novos caminhos.

Entretanto, ele nunca se fixou em uma única orientação de trabalho ou em qualquer boa solução encontrada. No início dos anos 80, retomou com novo fôlego a figura humana. Uma figura que emerge das profundidades e das sombras, carregada de mistérios e de dores, que ele destrói para refazer, dilacerada e mais humana do que nunca. Em grandes telas sombrias, como sua derradeira obra Solidão, deixada inacabada, ele testemunha sua luta contra a morte. Pois, para este artista, pintar era viver.

Maria Amélia Bulhões

 

Imagem: Vista parcial da “Primeira exposição do Programa Escola da Fundação Iberê Camargo”, que esteve em cartaz na primeira sede da Fundação, no bairro Nonoai, no ano de 2004. Foto © Mathias Cramer

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